Eu esperto

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Dizem que negócio bom é aquele que é bom para ambas as partes. Mas, nem sempre isso é possível, já que não é essa a regra da sociedade capitalista em que vivemos. Na verdade, o que vemos é que, se um dos lados leva vantagem, é porque o outro leva desvantagem. E isso é o mais comum de acontecer, porque sempre tem o mais esperto, o mais malandro ou o mais mocorongo.

Mocorongo, principalmente na linguagem dos quartéis, quer dizer burro, lerdo, faísca atrasada, tolo, otário, mané, etc. Quando prestei o serviço militar (1969), essa palavra era muito usada entre os milicos. Fui amigo e ainda lembro de alguns mocorongos. O mais famoso deles, aqui da região (acho que de Araruna), apelidado de “Bandera”, era a alegria da “milicaiada”, pelas asneiras que falava.

Depois de um certo tempo engajado e sem nenhuma chance de promoção, largou a farda e foi embora para Curitiba. Virou empresário e, por ironia do destino, ficou rico. Em certa ocasião, eu e o meu irmão Tita fomos visitá-lo em sua empresa e fiquei abismado com tanto progresso. E pensei: – E eu esperto, hein?!.

HarpaIncomum, mesmo, é acontecer um mau negócio para ambos os lados. Mas comigo aconteceu. E de forma inusitada.
Eu tinha uma Harpa Paraguaia e um cidadão queria porque queria comprá-la. Vivia me mandando recados e não podia me ver que já vinha me perguntando: – E a harpa, vende ou não vende?
– Não vendo, é de estimação, eu respondia.
Até que um dia ele veio com uma proposta irrecusável. Ofereceu-me um notebook em troca da harpa. Eu ainda respondi que não, achando que ele pediria volta. O notebook – coisa rara e cara na época – valia muito mais que a harpa.
– Eu troco de mano, disse ele. Eu nem acreditei. O cara estava doente, mesmo, pela harpa!
Aí não teve jeito, fizemos o negócio. Um mês depois vendi o notebook. Só que fiado. E nunca recebi. E ele disse pra esposa que eu tinha voltado mil reais na troca. Só que fiado. E, lógico, nunca paguei. Descobri isso quase um ano depois, quando um amigo da família me contou que a mulher dele andava danada de brava comigo porque eu não pagava o marido dela.
Mais um tempo, nos encontramos em uma casa lotérica. E, ao contrário das vezes anteriores, ele me perguntou se eu não queria comprar a harpa de volta.
– Até que eu gostaria, mas não tenho dinheiro, respondi.
Ele insistiu.
– Troco por um violão!
Coincidentemente, eu havia acabado de comprar um violão. O mais barato que encontrei.
– De mano?, perguntei meio que brincando.
– De mano, respondeu sério.

Eu não acreditei. A harpa, desta vez, é que valia muito mais que o violão. Aí não teve jeito, mais uma vez fizemos negócio. Ele nem quis ver o violão e eu também não quis ver a harpa. Eu já a conhecia!

Conhecia!!! Não a reconheci mais. Estava toda estragada, não prestava nem para exposição. Como já tínhamos batido o martelo, preferi manter a palavra. Como diz o Artur Kunioshi, cabrito bom não berra!

Com isso, perdi a harpa (acabei doando-a para um amigo), perdi o violão e ainda fiquei com fama de caloteiro.
Se um dia eu encontrar a mulher dele, vou mentir pra ela que, neste último negócio, ele é que me voltou mil reais. Assim ficaremos quites.

E, se um dia ele me oferecer o violão de volta, vou sair correndo.


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML


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