Deus é fiel! Pra Quem?

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No jogo entre Brasil e Chile, pelo campeonato Sul-Americano Sub-20 de 2011, o comentarista de uma rede de televisão disse mais ou menos o seguinte ao comentar o segundo gol da equipe brasileira: – Graças a Deus, o Bruno cabeceou de volta para a grande área uma bola que já ia pra linha de fundo…possibilitando que Neymar fizesse o gol.

Há algum tempo, assisti a um jogo do Cruzeiro de Belo Horizonte – não lembro contra quem – em que o seu goleiro Fábio foi considerado o melhor jogador em campo, garantindo a vitória de sua equipe. Ele fez, no mínimo, três defesas extremamente difíceis e foi, com justiça, o mais assediado pelos repórteres.
– E aí, conta como foi que você conseguiu pegar aquele pênalti?!
– Foi Graças a Deus. Foi Ele que me iluminou naquela hora…
– E aquela defesa no ângulo?
– Foi Deus. Ele estava comigo naquele momento…
– E aquela cabeçada no último minuto de jogo?
– Deus é fiel. Foi graças a Ele…

Deus é fielAs palavras podem não ter sido exatamente essas, mas foi mais ou menos isso o que o goleirão disse a todos os repórteres que o entrevistaram. Ele estava empolgado era com “Deus” que, na visão dele, havia sido o responsável pelas suas magníficas defesas e a consequente vitória de sua equipe. Em nenhum momento ele falou de sua performance – ou de sua equipe – que, em síntese, era o que os ouvintes ou telespectadores queriam saber.

Pois bem! O cara treina quase dez horas por dia, tem um treinador de goleiros só pra ele, um preparador físico só pra ele, um dos melhores treinadores do mundo, uma academia de ginástica e musculação de última geração, alimentação rica e balanceada preparada por nutricionista, uma equipe médica das mais qualificadas – incluindo fisiologista, fisioterapeuta e psicólogo e, de lambuja, ganha mais de 200 mil por mês. E foi “Deus” quem o fez pegar aquele pênalti.

E aí vem a explicação do cara que bateu o pênalti.
– Deus sabe o que faz. Ele quis assim. O que é meu está reservado…

Esse mesmo goleiro, num jogo entre Cruzeiro e Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro de 2013, defendeu um pênalti chutado pelo centroavante Fred, garantindo o placar de zero a zero no primeiro tempo. Nas entrevistas, no intervalo do jogo, voltou a responsabilizar “Deus” pela sua sensacional defesa. – Deus me abençoou, disse. No segundo tempo, “Deus” abençoou o Fred, que de cabeça fez o gol da vitória do Fluminense.

No jogo entre Mirassol e Corinthians (13/03/2011), pelo Campeonato Paulista, o jogador Serginho, do Mirassol, disse que o seu gol foi obra de “Deus”. Willian, do Corinthians, também creditou a “Deus” os seus dois gols. Neste jogo, especificamente, “Deus” foi “Fiel”, o Corinthians ganhou por 3 a 2.

Pelo amor de Deus (epa)! Essa história de que “o homem lá de cima” é quem determina tudo num jogo – quem chuta, quem defende, quem marca, quem joga mal, quem joga bem, quem ganha ou quem perde – ninguém aguenta mais.

O pior é que isso não se restringe aos jogadores apenas, mas a treinadores, dirigentes, torcedores, e até comentaristas. Santo Deus!

Ora, se “Deus” é bom e fiel como afirmam, como que ele pode pender para este ou aquele jogador? Ou para este ou aquele time? Querem saber? Eu acho que “Deus” não está nem aí para as competições esportivas. “Ele” tem coisas mais importantes para se preocupar, como evitar que crianças morram de fome ou sejam assassinadas por algum desequilibrado mental, que jovens sejam estupradas e mortas, que as drogas destruam sonhos, vidas e lares… E o mais importante: proteger os políticos, para que só façam o bem para os “Seus” filhos. A Assembleia Legislativa do Paraná, por exemplo, só realiza as sessões “sob a proteção de Deus”. Deve ser assim no Brasil todo, claro, porque: haja proteção! “Deus”, em sua infinita bondade (suas “excelências” gostam de usar essa frase), protege até os políticos que cometem traquinices, mas, perdoem-me a “descrentice”, não nos protege contra eles.

“Deusolivre”!


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML


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