Desassossego em Pessoa

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“Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolarme-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?”              (Fernando Pessoa)

 

 

 

– Eu quero gozar !Ei Psiu! Eu quero gozar!( back vocal feminino) – A vida com você! A vida com você! – Eu quero gozar…  Neste refrão resume-se tudo que eu queria: Poder gozar a vida só com você!

Os manuais de auto-ajuda nem de longe conseguem ser mais profícuos, explícitos e vasodilatador  que esta música do  ovacionado lexicólogo/ filosofo Alípio Martins. Queria ter aprendido a gozar, gozar rindo, gritando, gozar de todo jeito, mesmo quando era sem jeito…  Calma pessoal,  não se trata de bandalheira nem sessão de descarrego do pranto e ranger de dentes, é apenas um ensaio Mazzaropiano. Vamos lá e venhamos cá como disse o Leminski: “Não fosse isso e era menos, Não fosse tanto e era quase”.

Meu desassossego na vida até agora sempre chamei de perfeccionismo,  no entanto, espiando-me refletido na água suja da bacia dos afogados, pude ver que nem busco a perfeição, nem me ocupo em lapidar cristais, antes; coleciono pedras, seixos – entulhos, que sirvam como munição para atirar nas pessoas, especialmente nas que eu gosto.

Comporto-me como um sátiro – um fauno que procura sua ninfa, uma deusa – uma fada sem asa, quem sabe uma trapezista de circo. Cismo de reconhecer Minerva, Diana, Afrodite em mulheres que após convergirmos, sem mais nem porque me espanto em descobrir apenas humanas, é Helena de Tróia, Rosa Luxemburgo,  Maria… Possuem beleza, força, brilho… Minhas metades de homem e bode  são-me intoleráveis,  me sinto um roto e busco o agasalho das almas mais trapilhas. Encanto-me com cuitelinhos – especiezinha de beija-flor que me enamoro e logo exijo exaltado “Adocica meu amor, adocica. Adocica meu amor a minha vida”, vidinha quase sempre nauseabunda. Sou um intolerante com a humanidade alheia, me exaspera não serem deusas, é assim desde criancinha: De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da outra”…

Não sei se foi a pendenga entre o Édipo e a Jocasta da minha vida, mas cresci neurotizando a sensação de rejeição e carente pelo amor de mãe, compreendo hoje que meus primeiros sentimentos se formaram por um mosaico de cacos diversos, que prensei na minha tábua de Talião.  “Cría Cuervos” é uma foto 3×4 que me expõe, me sentindo amputado, esquartejo com faca cega na exata proporção.  Ajo no amor como Cérbero na porta do tártaro – inferno: “Quando alguém chegava, Cérbero fazia festa, era uma criatura adorável. Mas quando a pessoa queria ir embora, ele a impedia; tornando-se um cão feroz e temido por todos”. Vocifero com minhas três bocas de cão raivoso quando sinto fugir a chance de  me humanizar através de um amor divino, não aceito que quebrem o encanto; não aprendi a crer em amor demasiadamente humano. Só aceito o arrebatamento mútuo como real medida.

Esta é a lenda do boto Paroára que fugiu das águas por acreditar que encantado era tido como normal, captou a aparência como conteúdo. No jogo das conquistas prosperou, mas não conseguiu encher o buraco que esconde sob o chapéu. Que a pororoca rompa todos os barrancos e venha arrastar a criatura de volta ao  leito do rio, que se dissolva nas águas barrentas o fake cultivado, que rompa a carapaça e revele se é boto rosa ou tucuxí…

Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.” Compreendo que preciso diz respeito a exato, a decerto. É mais fácil acertar uma rota naval, ou como interpreta F. Pessoa se guiar pelo  sentimento, do que viver. Tupí ou Tucupí  eis a questão!

A última palavra é de Pessoa: “A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.”.


Sobre o Autor

Velho Zanca
Velho Zanca

Sapateiro amador - MBA em Meia-sola pela Nail Box Sculeichow of Salta oLeit pCity - Utah bãm. Nasceu em Buiaquinho Coxado. Quando menino e abestado caiu em rio que tem piranha! (PS.: Não sabia nadar de costas). Viveu anos boiando por aí, engolindo muito sapo, de tanto a água bater na bunda, resolveu aprender a ler para ser alguém na vida. Não conseguiu ser nada, mas continua lendo.

Um Comentário


  1.  

    O mais pessoal de todos os textos do Zanca, Ufa! Enfim descobriste que não são as mulheres que exigem demais, que querem “anjos”, é você que projeta a perfeição que moldaste e criaste. Perfeição é foda. Desassossegar-se também. No mínimo mostra coragem. De ver-se, rever-se reverso, avesso. Congrats, Véio. E, se vale um recado, use a literatura para impregnar-se de vida, e não ignorá-la.





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