Chifre

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O compadre de São Paulo veio visitar o compadre de Campo Mourão. A única coisa que modificara durante os quase cinco anos que não se visitavam foi o fato de o compadre daqui ter se separado da mulher. No mais, a mesma casa, o salário mínimo de sempre, a situação um pouco mais complicada, porque agora estava sem a esposa, com quem dividira uma grande parte da sua vida. Fazia, pelo menos, uns dez meses que a separação havia acontecido.

– E aí, compadre?! Que foi que aconteceu, se separar, depois de véio?

– Ela me botou chifre, compadre.

– Não me diga! A comadre te traiu?

– Traição da braba. Ó a minha testa…

Pobrete mas alegrete – agora chifronete – ele não perdera o seu bom humor.

– Quando descobri, eu já tava com a guampa deste tamanho! Todo mundo já sabia, menos eu. Aí, mandei a marvada embora.

– Liga não, compadre. O tempo é a razão de tudo, você ainda vai dar a volta por cima.

– Volta por baixo, compadre, porque por cima o chifre enrosca…

E o compadre de São Paulo foi embora. Amigos de longa data – tanto é que eram compadres – uns três anos depois ele veio novamente visitar o compadre de Campo Mourão. Mas não o encontrou. Ele havia ido embora para uma cidade da região e se amigado com uma fazendeira. Por ironia, uma mulher que largara do marido porque também estava sendo traída (levando chifre). Descobriu e mandou o cara pastar, como gostava de contar – linguagem própria de quem lida com gado.

Pergunta daqui, pergunta dali e os compadres se reencontraram, com a satisfação de sempre, com a alegria de sempre, mas com uma recepção muito mais farturosa, digna de um fazendeiro bem sucedido, com direito a piscina e passeios a cavalo. E o compadre daqui, lógico, muito feliz. Além da vida rica que estava levando, a atual esposa era muito mais bonita.

Três dias depois, após colocarem as conversas em dia e se divertirem bastante, o compadre de São Paulo foi embora, prometendo voltar em breve. Na despedida, quando ficaram a sós por um instante, ele não se conteve e disparou:

– Mas que chifre abençoado, hein, compadre?!


Sobre o Autor

Osvaldo Broza
Osvaldo Broza

Empresário, escritor, membro da Academia Mourãoense de Letras - AML

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