#Só que não

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#Só que não
Dia desses, no almoço do domingo a fala de um dos comensais era mais ou menos a seguinte: “Mas, claro, com o monte de equipamentos que temos hoje, vai faltar emprego mesmo…”. A fala dizia, na verdade, respeito a equipamentos agrícolas, como plantadeiras, colheitadeiras, semeadeiras e afins, mas, como já tinha escutado em outras ocasiões a mesma acusação dirigida à informática, acabei tomando pra mim algumas dores e, apesar de não entrar na polêmica, me pus a pensar a respeito. A carapuça meio que me serviu, já que estou inserido num universo que sobrevive da tecnologia, em particular da informática. Eu me perguntei, então, sobre o quanto de verdade existia naquela afirmação. A tecnologia rouba empregos mesmo?

Puxando pela memória, acabei voltando uns 30 anos e indo bater lá no início da década de 80, pra me lembrar de como eram as coisas antes da tal informática. Eram tempos loucos em que se acreditava que a AIDS poderia se transmitir por um aperto de mãos ou pelo ar, por estar num mesmo ambiente com alguém soropositivo, como se fosse uma gripe. Nem tão loucos assim, né. Afinal eu tenho observado nos últimos tempos mais gente preocupada em botar areia no pratinho das plantas pra evitar a dengue do que em usar preservativo pra evitar a AIDS. Mas isso já é um assunto para o novo suplemente de Bem Estar e não pra coluna de tecnologia. Não tem jeito, eu sempre me desvio do assunto, me desculpem. Vamos voltar à informática.

Lembro que nesses tempos loucos, algumas agências de grandes bancos privados na cidade chegaram a ter mais de 200 funcionários. As mesmas agências desses mesmos bancos hoje têm 25. Então a tecnologia roubou vagas, já que o mérito (demérito?) dessa redução é fruto da aplicação da tecnologia, em especial, da informática.  Mas, alto lá: prefiro analisar essa cena sob um outro viés.

Lá nesses tempos loucos, quando íamos ao banco enfrentávamos longas filas e a demora no atendimento era (quase) compreensível, já que as informações das nossas contas ficavam naquela pastinha alaranjada, lá naquele gaveteiro – imenso, por sinal – com letras na tampa, indicando que clientes estariam ali, em ordem alfabética. Depositar ou sacar implicava em registros manuais a caneta, na ficha, e contas executadas numa calculadora.

Não surpreende, então, após tanta inovação tecnológica, continuarmos enfrentando longas filas e demora no atendimento? Aliás, os processos mais típicos nas agências do banco – depositar e sacar – sequer são feitos nos caixas atualmente, já que a maioria é feita pelo próprio correntista nos terminais de autoatendimento. Checar saldos, pagar boletos, transferir dinheiro, os clientes fazem via homebanking, pela internet. Ainda assim enfrentamos filas nos caixas. O que se esconde, então, por trás desse contra-senso?

Lá naqueles tempos loucos, eu, já inserido no universo da informática – bem mais inocente do que sou hoje – já ensaiava a comemoração: “Putz, quando informatizar isso tudo vai ficar muito bacana! Já pensou, entrar na agência do banco e ser atendido em alguns poucos segundos? Muito bom, hein!” Santa Inocência! Acreditava eu naquela época que a tecnologia viria em favor do bem estar, da saúde e da felicidade das pessoas. Imaginava pessoas trabalhando 5 ou 6 horas por dia e dedicando o restante do dia para a família, para os amigos, para o lazer, para a saúde, para a religião, para a cultura, ou seja lá o que for que as fizesse se sentirem bem.

Ocorre que a tecnologia acabou virando uma ferramenta de concentração de renda. Nessas agências bancárias onde poderíamos estar sendo atendidos com rapidez e respeito, continuamos enfrentando filas e demora no atendimento. Uma ressalva: esse aproveitamento, digamos, cruel, da tecnologia não é exclusividade de bancos. Conheço empresas que multiplicaram seu faturamento por quase 10 nos últimos 15 anos e continuam com a mesma quantidade de funcionários que tinham há 15 anos. Todos trabalhando sob a mesma pressão e submetidos ao mesmo nível de stress e cobrança por resultados daquela época em que tudo era manual. Já não seria hora de ter mais gente trabalhando um pouco menos?

Talvez eu tenha uma visão meio caolha sobre os negócios, mas eu imagino que cada emprego que nego na minha empresa de informática pode ser um par de sapatos vendido a menos na sapataria, um eletrodoméstico a menos no magazine, uns copinhos de iogurte a menos no supermercado e alguns litros de gasolina a menos no posto. A conseqüência deve ser um funcionário a menos no escritório de contabilidade e, potencialmente, um computador a menos pra minha empresa vender ou consertar. Às vezes, quando observo alguns administradores e empresários à nossa volta, me pergunto se só eu penso dessa forma, se sou um idiota tresloucado. Não é a tecnologia que rouba empregos. O que rouba empregos é a ganância de alguns que a usam como uma fria ferramenta de, repito, concentração de renda.

Ainda contrapondo-me à afirmação de que a tecnologia rouba empregos é bom observarmos que muitas vagas também são geradas pela tecnologia. Não é preciso muito esforço pra – tomando a informática como exemplo – nos lembrarmos de um primo Programador, um cunhado Analista de Sistemas, uma vizinha Webdesigner ou uma ex-colega de escola Analista de Redes Sociais. Essas profissões não existiam nos loucos idos de 80.

Nossa! Parece que eu fiquei ofendido pela afirmação do amigo, no almoço, e que estou legislando em causa própria. Não é bem assim. Acredito no capitalismo e sei que isso ainda vai dar certo… só que não.


Sobre o Autor

Cláudio Luís Resende
Cláudio Luís Resende

Cláudio atua na área há trinta anos, é proprietário da Astec Informática e professor no SENAC.


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