O mecânico e o playboy

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Escreveu, não leu, uma mãe de adolescente liga lá no meu escritório: “Então, Seu Cláudio, meu filho é muito bom em informática, sabe… Eu queria ver se o senhor não queria conceder um estágio pra ele. Acho que ele tem talento pra área. Ele sabe tudo de computador”. Realmente, tem uns meninos e umas meninas bem talentosos por aí. Isso eu preciso reconhecer. Mas, partir do princípio de que quem gosta de ficar no computador, xavecando as meninas e meninos no Facebook ou jogando games, tem vocação para a área de informática é um engano grave. Seria parecido com dizer que o playboyzinho que fica dando rolê de carro no sábado à noite no centro da cidade tem vocação pra ser mecânico…

O mecânico e o playboyOcorre que nem todo mundo que gosta de passear de carro no centro da cidade vai querer sujar as mãos de graxa na oficina, enfiado embaixo de um carro, com o motor fundido. Assim também ocorre na informática: nem todo mundo que gosta de ficar no Skype levando lero com os amigos, vendo vídeos no Youtube ou baixando músicas vai curtir atividades como desmontar computadores, fazer backup e reinstalar Windows’s, se esgueirar por debaixo de um balcão de recepção pra reconectar o cabo USB da impressora que escapou ou furar a laje do apartamento para passar o cabo que vai conectar o computador à internet.

Acredito que alguns prazeres, quando viram trabalho, perdem o encanto. Me desculpem a desconfiança, mas às vezes fico imaginando o Mick Jagger, dos Rolling Stones, negociando com o seu diretor a possibilidade de não cantar “Satisfaction (I can’t get no)”: – Putz! “Satisfaction” de novo! Não dá! Eu canto essa música desde 1965… Não dá pra fazer, pelo menos esse show, sem “Satisfaction”?E o diretor retrucando: – Não tem jeito, Mick, a galera quer escutar. Vai ter que rolar…

Consegue imaginar o Romário, nos áureos tempos de Vasco ou de seleção brasileira, na concentração, longe do pagode, da cerveja e da mulherada? Então, é disso que estou falando: como qualquer outra profissão, a informática é muito sedutora, mas quando vira trabalho, exige alguns sacrifícios e desapegos. Aliás, essa sedução que a informática exerce sobre a galera jovem, em especial, sempre me provocou e nunca consegui explicar.

Por que o carinha não corta a grama da casa dele – coisa que, com o perdão dos jardineiros, é muito mais simples do que informática – mas ele insiste em tentar consertar o próprio computador? E não é raro presenciarmos tentativas frustradas em que o molho acaba saindo bem mais caro do que o peixe.

Em particular, a informática exige do seu profissional uma disposição em aprender eternamente. Sempre. Cada vez que você pensa que aprendeu e está sossegado, já mudou de novo. Dá-lhe aprender outra vez… Quem pensa em ter horário certo pra almoçar e pra ir embora pra casa no final da tarde também pode ir pensando em desistir da informática antes mesmo de começar: horário rígido é um lance que não combina muito bem com profissionais de informática.

Não quero aqui, evidentemente, fazer terrorismo com relação ao trabalho na informática, até porque, se fosse ruim, eu não estaria há 34 anos na área. Mas acredito que seja conveniente distinguirmos o prazer em ser usuário ou cliente de um tipo de negócio e ser profissional da área. São coisas bem distintas. E isso, como já falei antes, não é uma peculiaridade da informática, apesar de boa parte da galera jovem querer trabalhar nessa área.

Falando em horário, acho que vou parando por aqui, porque tenho um servidorzinho ali pra terminar pra amanhã cedo é já é meio tarde. Vou ali. Graxas do ofício…


Sobre o Autor

Cláudio Luís Resende
Cláudio Luís Resende

Cláudio atua na área há trinta anos, é proprietário da Astec Informática e professor no SENAC.


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