A pulverização que nos permeia

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Numa ocasião, há quase 20 anos, em 1996, quando um querido amigo de nome Amélio ainda estava entre nós, ele afirmava, durante uma longa conversa, que nunca mais uma banda ou um músico faria sucesso como os Beatles. Dizia ele que os Beatles eram os melhores e nunca seriam superados por ninguém no planeta.

Eu concordei que ninguém mais faria sucesso como eles, porém, discordava de que os Beatles eram tão melhores. Eu diria que os Beatles não fariam tanto sucesso se começassem a tocar em 2014. O que aconteceu lá nos anos 60 foi que o consumo da música na grande mídia era, basicamente, polarizado entre Elvis Presley e Beatles. Não concordo que os Beatles teriam sido tão melhores e não acredito que não exista alguém pelo planeta afora fazendo música tão boa quanto a que eles fizeram.

A pulverização Ocorre que há 50 anos alguns sortudos caíam na graça de uma gravadora e lá iam os bonitos gravar e ser distribuídos por todo o mundo. Atualmente, em 2014, qualquer Zé-Mané grava um lixo de som num videozinho no celular, põe lá no Youtube e inibe o consumo de boa música. Essa, por sua vez, acaba por não chegar à grande mídia, dominada pela falta de bom gosto e senso crítico.
Pulverização: é isso que tá rolando. Em tudo. Dia desses, no mercado, eu precisava comprar sabão em pó. Tarefa difícil, hein, galera! Tinha sabão em pó pra roupa masculina, pra roupa feminina, pra roupa infantil, pro inverno, pra primavera, pra quem mora abaixo do Equador, pra quem guarda o sábado, pra quem escuta sertanejo, pra isso, pr’aquilo… E eu só queria um sabão em pó. Só isso. Não vou nem falar sobre shampoo, então! Pulverização.

Esse fenômeno permeia todos os universos: o da música, do comércio, da medicina, o do teatro, da construção civil, da fotografia, da TV, da indústria gráfica… Vamos lá: para os que têm mais de 40 anos, quantas emissoras de TV existiam? E hoje? Numa conversa regada ao melhor café de Campo Mourão, no final dessa semana que se passou, nos perguntávamos sobre como a Coca-Cola distribui seu investimento em marketing: Globo, SBT, Band News, Facebook, Instagram, HBO, Uol, Estadão, Veja, Barretos… Pulverização.

Estou falando de pulverização porque é o que está começando a acontecer, por exemplo, entre as redes sociais também. O Instagram e o Tumblr têm crescido mais do que o Facebook. Por quê? Porque, em especial os jovens, têm começado a optar por plataformas onde não encontrem pais ou familiares. Ah, outra coisa também: eles têm fugido das propagandas, que têm “poluído” o ambiente do Facebook. Pesquisas apontam ainda outras justificativas: o usuário roqueiro, que tem um amigo sertanejo, não está interessado no vídeo que o segundo postou. O usuário apreciador do tênis não dá a mínima pra posts sobre futebol. E por aí vai. Tem uma galera grande migrando pra redes sociais que tenham mais a cara dos seus interesses, de maneira a tentarem estar cercados por pessoas que se pareçam mais com eles, ou que, no mínimo, tenham os mesmos interesses.

O que tá acontecendo, então? Depois de termos tido “amigos” de todas as idades, de todas as classes sociais, de todas as religiões, de todos os países e termos tornado o planeta uma coisinha tão pequena, ao alcance de um clique, voltaremos a viver em pequenas vilas? Vamos procurar, então, uma rede social onde todos gostem de funk, ou onde todos sejam asiáticos, ou onde todos tenham menos de 19 anos, ou onde todos apreciem automobilismo, ou onde todos sejam evangélicos? Pulverização geral. Bom, ruim? Sei lá. Depois a gente discute a respeito, durante um outro café.


Sobre o Autor

Cláudio Luís Resende
Cláudio Luís Resende

Cláudio atua na área há trinta anos, é proprietário da Astec Informática e professor no SENAC.

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