RIO+20: PÁRA OU CONTINUA?

Em junho aconteceu no Rio de Janeiro a Conferência da ONU, conhecida como Rio+20. O objetivo foi assegurar o compromisso político com o desenvolvimento sustentável, renovando os debates iniciados há 20 anos em outra conferência, a RIO92. Os principais pontos discutidos na Rio+20 envolveram a importância da economia verde, maneiras de eliminar a pobreza, o balanço dos últimos 20 anos em relação à sustentabilidade e o fortalecimento do quadro institucional internacional na área do desenvolvimento sustentável. O documento final, intitulado “O Futuro que Queremos”, apresenta várias intenções, mas adia para os próximos anos a definição de medidas práticas para proteção do meio ambiente, frustrando muitas expectativas. Analistas afirmam que a crise econômica mundial prejudicou as negociações e a solução dos impasses entre diferentes interesses, principalmente dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, ficou pra depois.

O que fazer quando não se chega a um consenso, pára ou continua? É possível encerrar uma conferência desse porte sem chegar a um acordo? Será que deixar os grandes conflitos pra depois, tá valendo como consenso? Insistir nas negociações até que um dos lados ceda, vencido pelo cansaço, é consenso? Penso que essa reflexão cabe em qualquer conferência, desde as globais até as familiares, do tipo que acontece ao redor da mesa, na cozinha. Às vezes, reconhecer que estamos numa encruzilhada, sem saber pra que lado é a saída, pode ser melhor do que uma solução “pra inglês ver”, como dizia a minha mãe. Não tenho idéia de onde vem essa expressão, mas sei do que a minha mãe falava: da superficialidade, da fantasia, da brincadeira de faz de conta… Eu faço de conta que cedi e você faz de conta que acredita, e todos fazemos de conta que vamos cumprir o combinado.

A pergunta persiste e repercute: e agora, pára ou continua? Vamos planejar a Rio+30?

Vejamos… Não foi criado o fundo de 30 bilhões de dólares/ano como queriam os países mais pobres, mas foi mantido o princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas” que os países ricos queriam retirar (o princípio prevê que os países que mais degradaram o meio ambiente, contribuam com mais recursos financeiros). O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) não foi transformado em agência, como queriam os ambientalistas, mas o programa será fortalecido e o debate está marcado pra setembro, na Assembléia Geral da ONU. Foi adotada como instrumento jurídico a Convenção da ONU sobre os Direitos do Mar (Unclos) para o uso sustentável da biodiversidade e conservação em alto mar. Não definiram metas para o desenvolvimento sustentável, mas iniciaram um rascunho para estabelecer essas metas até 2013, a vigorar em 2015 quando terminam os Objetivos do Milênio.

Esses foram os resultados da conferência divulgados pela mídia, em linhas gerais, mas outras coisas aconteceram por lá em eventos paralelos. Por exemplo: a) a Cúpula dos Prefeitos (das maiores cidades do mundo) que se comprometeu a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 12% até 2016 e em 1,3 bilhão de toneladas até 2030; b) encontros e conexões com pessoas como Frei Betto e Marina Silva; c) mobilizações nas ruas como a Marcha da Cúpula dos Povos, entre muitos outros.

Motivo de orgulho pra nós mourãoenses foi o painel “Cidades Sustentáveis”, apresentado no Fórum Corporativo, no qual Lídia Mizote, coordenadora da Agenda 21 de Campo Mourão, compartilhou a nossa experiência, divulgando que somos a 15ª cidade no mundo a entrar para a fase do Projeto Inovador do Programa Cidades Sustentáveis do Pacto Global da ONU.

Deve ter gente pensando “Campo Mourão, cidade sustentável?” Tudo bem, a sustentabilidade ainda pode estar longe. Assim como está longe do Rio de Janeiro, com pessoas se alimentando do lixo que saía da Conferência e com a Baía da Guanabara ainda tão poluída! Como estava longe da própria Conferência que não tinha coleta seletiva estruturada. Mas o desafio é justamente lidar com a realidade, procurar soluções locais sustentáveis para os nossos problemas: as desigualdades sociais, o abuso ambiental, a crise econômica, o difícil debate entre lideranças políticas, a lentidão dos acordos… Esse é o mundo que nós temos e é preciso partir dele, pra construir o mundo que queremos.

Vindas dessa mesma realidade, de todas as partes do mundo, mais de 45 mil pessoas estiveram na Rio+20 para debater e demonstrar o seu desejo de mudança. Essa mobilização e especialmente a energia vibrante dos mais de 1500 voluntários no Riocentro, incluindo jovens estudantes de escolas públicas, escolas técnicas e universitários de todo o Brasil, nos inspira e responde a pergunta. Pára ou continua? CONTINUA!


Sobre o Autor

Zuleide Milanez Giraldi
Zuleide Milanez Giraldi

Empresária da AME Treinamento e Desenvolvimento, participante do Fórum da Agenda 21 de Campo Mourão e do Conselho do Observatório Social.

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