Ou isto ou aquilo!

O poema “Ou Isto ou Aquilo”, de Cecília Meireles (para crianças), foi musicado e eu adoro ouvir minha sobrinha cantando: “… ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro…; ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo…”. Sempre que me deparo com a necessidade de fazer escolhas, a música me vem à cabeça.

Às vezes me esqueço de levar a sacola retornável ao supermercado, e aí? Aproveito a gratuidade das sacolas plásticas pra depois acondicionar o lixo orgânico ou trago os produtos em caixa de papelão, que depois descarto como reciclável? Entro naquela fila enorme pra pesar o presunto ou pego aqueles embalados nas bandejinhas de isopor? (Já pensou em quantas bandejinhas de isopor são descartadas como lixo em Campo Mourão?). Um banho é mais sustentável no chuveiro elétrico ou na ducha com aquecedor a gás? Dou uma lavadinha básica nos recicláveis pra coleta seletiva ou consumo mais água (e sabão) pra mandar o material mais limpo? Abasteço o carro com álcool ou gasolina? “… ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo…”.
ouistoouaquilo

Aposto que você também já teve essas dúvidas… Muito se fala nas cisternas pra armazenar água da chuva e economizar (a água e não apenas na conta!). Mas você nunca pensou que ao molhar os jardins com a água da rede de abastecimento estamos devolvendo a água diretamente para a natureza? É claro que usando água da chuva economizamos o tratamento na rede, mas água armazenada em cisternas também precisa de cuidados e de tratamento para manter a qualidade e evitar a dengue! Viu só? “… ou isto ou aquilo…”.

Empresas também se deparam com esse tipo de decisão, inclusive em situações mais complexas (em que a relação causa e efeito não é tão óbvia e imediata). Pressionadas pelo mercado, pela legislação ou inspiradas por seus próprios valores, investem para melhorar as condições de trabalho e/ou para diminuir o impacto de seus processos produtivos: energia limpa, matéria-prima renovável, embalagens recicláveis, tratamento de resíduos, etc. Muitas podem estar longe do ideal, mas são comprometidas com os aspectos sociais e ambientais e não apenas com o aspecto econômico. Contudo, existem aquelas que adotam essas práticas apenas como estratégia de marketing: patrocinam atletas no Brasil, mas utilizam trabalho infantil na África; promovem campanhas de reflorestamento, mas exploram fontes de água mineral além dos limites da legislação; entregam presentes de Natal em entidades, mas compram de fornecedores altamente poluidores pelo preço baixo. É quase como dar com uma mão e tirar com a outra! Essas empresas ainda não me convenceram. Pra mim, sustentabilidade é uma questão de postura e práticas isoladas podem até ser válidas, mas só pra começar.

Penso que, quando a gente desperta pra sustentabilidade, o nosso olhar se transforma; passamos a valorizar os recursos naturalmente; desejamos mais justiça social todos os dias; mudamos nossa relação com o dinheiro e com o poder. Se essas práticas não levarem as empresas a repensarem seus processos produtivos e a forma de se relacionarem com seus colaboradores, com a comunidade à sua volta e com os recursos naturais que utilizam, é porque elas optaram mais por uma estratégia de marketing e não pela sustentabilidade como um valor: “ou isto ou aquilo…”.

Na gestão pública, políticos e gestores se deparam com decisões que envolvem conflitos de interesses, sejam eles econômicos, políticos, sociais ou ambientais. Um bom exemplo é a redução do IPI para carros novos, que incrementa a produção e garante empregos, mas torna o trânsito mais caótico e aumenta a emissão de CO2. Outros temas polêmicos são o Novo Código Florestal (muito debatido por ambientalistas e ruralistas), a transposição do rio São Francisco e os consórcios regionais de aterros sanitários.

Em Campo Mourão, no fim do ano passado, a Câmara aprovou a ampliação do perímetro urbano. A justificativa do Executivo Municipal foi promover loteamentos para famílias de baixa renda, alegando que os terrenos disponíveis dentro do antigo perímetro são caros pra essa finalidade. O problema é que essa decisão pode criar novos vazios urbanos, fontes de mais especulação imobiliária, que podem encarecer a infraestrutura necessária: rede de água, esgoto, energia, telefone e até mesmo a malha viária que precisa atravessar os vazios (e os rios) pra chegar aos novos loteamentos. Quanto mais distante é o bairro, maior é a necessidade de serviços como transporte coletivo, coleta de lixo, saúde, educação e segurança. Ou seja, a solução que visava baratear e permitir o acesso ao direito de moradia pode acabar encarecendo e restringindo o acesso a outros direitos. Embora o Estatuto da Cidade tenha criado instrumentos legais para combater a especulação imobiliária em prol do interesse público, as medidas geralmente deixam de ser aplicadas porque acarretam desgaste político. Olha a Cecília Meireles de novo: “… ou isto ou aquilo…”.


Sobre o Autor

Zuleide Milanez Giraldi
Zuleide Milanez Giraldi

Empresária da AME Treinamento e Desenvolvimento, participante do Fórum da Agenda 21 de Campo Mourão e do Conselho do Observatório Social.


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/metropolerevista/metropolerevista.com.br/html/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273