Onde a Água está batendo? (Questão de D´s)

Compartilhei aqui algumas dúvidas na construção da sustentabilidade: abastecer com álcool ou gasolina, usar a água tratada na rede ou tratar a água da chuva em pequenas cisternas em casa… (veja na Metrópole nº15). Alguns me perguntaram: afinal, é isto ou aquilo? Pois, é… Não tenho as respostas! Melhor dizendo, tenho sim: as minhas próprias, que mudam a cada escolha! Quando o puxa-sacos lá de casa está vazio, uso sacolinhas do supermercado. Não vou comprar sacos de lixo se as sacolinhas cumprem a função. Mas também não vou usar cinco sacolinhas, uma dentro da outra, só pra justificar que todas as que eu trouxe pra casa tiveram utilidade! Esse é o “D” da questão! “D” de Desperdício de recursos pra produzir (em grande quantidade) algo com vida útil muito curta e que depois demanda mais recursos pra ser reincorporada pela natureza. Isso sem falar nos bueiros entupidos e na morte das tartarugas e golfinhos. Esse D é de Descaso.

Onde a água está batendoPra algumas escolhas, dá pra pedir “ajuda aos universitários”. Por exemplo, é possível calcular a emissão de carbono do carro abastecido com álcool e com gasolina e dizer qual é o mais sustentável (não necessariamente o mais barato!). Mas para a maioria das escolhas que a gente faz todos os dias, não existe manual. Cabe aqui outro “D” na questão: Depende! Depende do impacto ambiental, e também do seu bem-estar e de quanto você pode pagar. Nós fazemos parte dessa história, mesmo! Mas não podemos ficar só com a parte que nos convém. Já viu ciclista que quer ter preferencial na rua e na faixa de pedestres? Ou passageiro que gosta de sentar na janelinha e de ser o primeiro a descer? Não dá! Ou isto ou aquilo, ensina a Cecília Meireles! Cada um de nós escolhe de acordo com aquilo que nos toca, que tem valor pra nós.

Nossas escolhas precisam caber no nosso bolso, mas terão impacto na sociedade e no meio ambiente e nós fazemos parte disso também. Quando nós avaliamos em pequena escala parece difícil perceber esse impacto, mas olha só: sabemos que a obesidade e a hipertensão crescem a cada ano nos países desenvolvidos. E que o desmatamento cresce para a criação de gado, de preferência bem gordo, pra manter os padrões de alimentação e desperdício (e não me venham dizer que é pra matar a fome da Etiópia!). E crescem também os gastos pra recuperar a saúde e os investimentos em pesquisas para novos tratamentos de doenças causadas pelo excesso de gordura! Uma coisa alimenta a outra! Será que a gente não tem nada com isso?

Provavelmente você não vai se lembrar de tudo o que comeu no final de semana, mas dá uma olhadinha no seu lixo, na segunda de manhã. Além de toda a comida, é provável que tenha muitas latinhas de cerveja, ao invés dos cascos de vidro retornáveis. Você tem dinheiro, você paga, você joga. Você pode.

Aquecimento global? Compro um ar condicionado. Vai faltar água potável? Até lá eu já morri! Já passei muita vontade nessa vida. Hoje, tenho dinheiro e quero mais é viver bem! É verdade, o D de Dinheiro parece que aumenta nosso poder de escolha. Quem tem pouco dinheiro se vê obrigado a viver com menos recursos. Mas se precisamos jogar comida fora pra sentir que temos fartura, se precisamos ter o último modelo de celular pra nos sentirmos inseridos entre amigos, se precisamos atender padrões de beleza impostos pela indústria da moda pra gostar de nós mesmos, estamos colocando esse poder a serviço de quem? Quando abasteço o carro com gasolina, porque o álcool não está “compensando”, vou gastar a diferença com o quê? Mais 1 kg de carne? Outro par de sapatos? Isso é viver bem?

Um processo equilibrado nos dá liberdade de escolha e depois nos leva a perceber e aprender com as consequências. Isso é responsabilidade e melhora a qualidade das nossas escolhas. Na antiga Grécia, berço da democracia, os homens se reuniam em praça pública pra debater questões do convívio social e tomavam decisões que afetariam o futuro da comunidade. Os meninos, quando se tornavam capazes de gerar filhos (futuros membros da sociedade), ganhavam o direito de debater e votar. Como um marco das novas responsabilidades, eles ganhavam uma peça de roupa (com a qual cobriam “suas partes”) chamada líbero, que mais tarde deu origem à palavra Liberdade. Ou seja, podiam opinar e votar, porque eram considerados aptos a responder por seus futuros descendentes! Liberdade e Responsabilidade caminhando juntas! A escolha que não é livre, não nos torna responsáveis. Mas liberdade sem responsabilidade é alienação, que nos leva a acreditar que as consequências são coisas do Destino!

Penso eu que a pergunta mais importante não é o que é melhor, se isto ou aquilo… Mas sim: O que tem mobilizado as suas escolhas? A falta de dinheiro para o ar condicionado? As sacolinhas que se rasgam ao menor peso? As tartarugas? Sua imagem politicamente correta? As enchentes que você vê na TV? Os bueiros próximos da sua casa? O que toca você?

Onde a água está batendo, aí na sua história?


Sobre o Autor

Zuleide Milanez Giraldi
Zuleide Milanez Giraldi

Empresária da AME Treinamento e Desenvolvimento, participante do Fórum da Agenda 21 de Campo Mourão e do Conselho do Observatório Social.


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