Sobre andorinhas, árvores e pedras

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Conflitos da memória na construção do calçadão de Campo Mourão

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Moldes de madeira eram utilizados para fixar os desenhos das andorinhas. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

 

Quando alguém fala a palavra “progresso”, logo vem a mente melhorias e avanços na vida das pessoas. Carros novos, banco informatizado, televisão digital, telefone celular de última geração. Mas o progresso tem outros lados.

O telefone celular, por exemplo, vem acompanhado de milhões de reclamações por falhas técnicas, mau atendimento, desrespeito com clientes, falcatruas judiciais. E há mais uma coisa: quando se fala a palavra progresso, logo vem à mente que ela cobre cada canto do mundo. Mas isso precisa ser bastante pensado. Há regiões, cidades e locais aonde o progresso não chega. O progresso é mesmo para todos? Para haver progresso em alguns lugares não será preciso que outros não tenham progresso? É uma palavra muito difícil de pensar. Mas engolir seco que ela traz uma realidade que só é boa é um problema. É desprezar a inteligência de todos.

O Brasil tem excesso de carro, uma indústria automobilística sempre agraciada por governos, e o brasileiro adora asfalto, que se tornou símbolo de progresso. Mas quem assume a responsabilidade depois pelo aquecimento do ar, pelas inundações provocadas pelo terreno impermeável coberto de asfalto? Quem responde pela destruição de coberturas vegetais para fazer asfalto para carros passarem? Desde quando a humanidade inventou o progresso, andamos para frente em tantas coisas, mas o mesmo progresso que construiu a televisão a satélite, criou o míssil teleguiado. O historiador inglês Eric Hobsbawm diz coisa interessante: o que aconteceu na história que aprendemos a achar que tudo que é novo é melhor?

O progresso de uma cidade pode ser apurado por inovações tecnológicas, mas também inovações estruturais. Em Campo Mourão houve iniciativas recentes com a intenção de fazer a população viver uma época de benefícios modernos do progresso. Principalmente na área central da cidade, surgiram iniciativas de modificações com mais intensidade. Prédios e ruas em Campo Mourão mostram referências importantes da história arquitetônica e urbanística de um Brasil moderno.

Na década de 1990 foram realizadas iniciativas que modificaram a paisagem urbana. Em outubro de 1991, foi inaugurado o que hoje costuma ser a sensação, uma das vedetes de grandes centros urbanos: um calçadão. O calçadão de Campo Mourão se apropriou de três quadras na Avenida Capitão Índio Bandeira, a principal via urbana da cidade. No início, o calçadão foi construído com um material denominado “petit-pavé” formando painéis com gravuras de andorinhas em revoada. A ideia veio de vários tipos de calçadão em Portugal, do famoso calçadão de Copacabana e do consagrado calçadão da Rua das Flores, em Curitiba.

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Vias que compõem o calçadão eram chamadas de “raspadinha” por serem estreitas para passagem de veículos. Fotos: Autoria Desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

 

A iniciativa mourãoense começou com a campanha “Sou Campo Mourão de Coração” promovida pela prefeitura da cidade. Um painel publicitário divulgava que “esta obra é parte integrada de uma ampla reforma urbanística visando uma cidade mais bonita”. Como dizia o chefe do executivo municipal, a intervenção urbanística visava “uma cidade mais bonita na sua expressão física e espiritual”. A campanha incentivava a participação da população no desenvolvimento do município: “a cidade é a soma da participação de cada um”, dizia a propaganda.

Foi promovido um concurso para escolher o desenho das andorinhas nas pedras portuguesas. Além de ficar para sempre na memória da cidade, o vencedor do concurso teria um prêmio em dinheiro. E as andorinhas que faziam suas casas na cidade, principalmente no verão, receberiam uma homenagem.

A obra do calçadão terminou em 1991 e trouxe beleza e graça ao centro da cidade. Fato que nem sempre conta para muitas pessoas. Uma visão bonita e agradável da cidade faz bem e isso também é progresso. Finalizada a obra, o calçadão de Campo Mourão passava a ter quiosques, bancos, passeio, mais árvores e espaço amplo para pedestres. Para ir às compras ou simplesmente passear e conviver.

Mas o progresso simbolizado no calçadão logo mostrou o lado feio de seu rosto. Problemas no estacionamento central, retirada de semáforos, estreitamento de ruas em vias de mão única, e motoristas confusos. Uma lei obrigava lojas e residências no centro a mudarem suas calçadas para se adaptarem às pedras portuguesas das andorinhas. Algumas exigências que a prefeitura passou a cobrar de cidadãos. E assim ficou por alguns anos.

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Circulação de veículos na cidade em 1991 era pequena, as obras de urbanização vieram para embelezar a cidade, mas não eram funcionais para o trânsito de carros. Fotos: Autoria Desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

 

Numa nova onda de progresso, em abril de 2014, nova intervenção no calçadão fez as andorinhas voarem e virarem lembrança. A antiga revitalização do calçadão dos anos 1990 ganhou outro aspecto. O antigo material petit-pavé foi substituído pelo novíssimo “paver”, material criticado por sua qualidade. A nova mudança dividiu opiniões. Para provar que o novo nem sempre é o mais desejado, muitos cidadãos defenderam que os ideais da campanha “Sou Campo Mourão de Coração” de 1991 deveriam ter continuado. Que o calçadão antigo fosse mantido e cuidado, e que deixassem lá as andorinhas. O calçadão de antes havia enchido de orgulho os que o viram e o viveram.

Para muitos mourãenses, conservar o velho e não mudar para o novo é que seria progresso. Há quem diz: nem tudo que evolui, evolui para melhor. Algumas coisas poderiam voltar. Uma ideia que muitos progressistas do moderno nem podem ouvir falar.


 

Autora: Jéssica Tzech Rodrigues – CURSO DE HISTÓRIA – UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ (UNESPAR) – Campus de Campo Mourão.


Sobre o Autor

História Unespar


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