Entre rios, baldes e torneiras, vovó conta histórias de um passado que se foi

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Desespero para habitantes de Campo Mourão. Era 07 de junho de 2014. Muitas casas sem água nas torneiras, nos supermercados garrafas de água sumiram das prateleiras. A chuva forte já durava alguns dias e inundou a central de captação de água do rio do Campo. A estação de tratamento parou de funcionar. Ruim, não é? Mas essa história já foi bem pior. Teve tempo que nem tinha estação de tratamento. Tudo mudou depois e hoje ouvimos as histórias dos que viveram o tempo de carregar água no balde.

Água fonte da vida, mas também água da diversão, do lazer, do encontro, point dos mourãoenses nas décadas de 80 e 90, a barragem da Usina Mourão. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

Água fonte da vida, mas também água da diversão, do lazer, do encontro, point dos mourãoenses nas décadas de 80 e 90, a barragem da Usina Mourão. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

A água tratada na torneira de nossas casas veio junto com a urbanização da cidade. No tempo das vovós não havia captação de água e o jeito era ir até o rio com o balde ou o latão. Desde antigamente, e até hoje, as pessoas em Campo Mourão sempre dependeram para matar a sede, tomar banho, fazer higiene, dos rios do Campo e do 119, e de minas naturais. Contam os mais velhos que muitos abriam poços e puxavam a água pesada na manivela em pequenos baldes. Tomar um banho era trabalhoso, porque era mais ou menos meia hora o tempo pra puxar a água toda.

Uma história da água tratada em Campo Mourão pode ir longe no tempo. Desde o início do século XX até 1940, mais ou menos, a população chegou a mais de 11 mil pessoas. Hoje parece pouco. A parte urbana da cidade começava a atrair pessoas e retirar muita gente dos negócios da fazenda. A cidade ia crescendo e o perímetro urbano foi sendo construído com casas longe do rio e das nascentes de água. A urbanização exigia que o líquido precioso fosse puxado do rio e das minas, não havia mais tempo na cidade para carregar água no balde. Durante longos anos, o que mudou foi que bombas amenizaram o trabalho de captação, puxavam com mais facilidade a água dos poços.

Monumento erguido da Praça Bento Munhoz da Rocha Neto (no entorno do Fórum), em 1976, no governo do presidente Ernesto Geisel (1974 – 1979), que marca o lançamento do Plano Nacional da Conservação de Solos. Fotografia do autor. Acervo particular do autor.

Monumento erguido da Praça Bento Munhoz da Rocha Neto (no entorno do Fórum), em 1976, no governo do presidente Ernesto Geisel (1974 – 1979), que marca o lançamento do Plano Nacional da Conservação de Solos. Fotografia do autor. Acervo particular do autor.

Mas para a cidade crescente, com a implantação de indústrias, só as bombas não dava. Em Campo Mourão a água na torneira dentro das casas é fato que não tem tanto tempo que aconteceu. Em 1963, a criação da Sanepar inaugurou a época da água encanada. No início ela só chegava às residências da área central, onde hoje são as avenidas Capitão Índio Bandeira e Manoel Mendes de Camargo, entre as ruas Santos Dumont e Devete de Paula Xavier.

O censo de 1980 mostrou pela primeira vez que a população urbana de Campo Mourão ultrapassava a população rural. A cidade não parava de crescer. A população da cidade aumentava e isso exigia cada vez mais o aperfeiçoamento do sistema de captação e tratamento da água. O plano de mecanização da agricultura diminuiu drasticamente o número de homens para o trabalho no campo durante a década de 1970, puxando gente para a cidade. Nela existiam 4.991 residências com abastecimento de água com apenas uma estação de tratamento, inaugurada em maio de 1979.

Na foto, a Avenida Capitão Índio Bandeira, na década de 1950. Ao fundo, à direita, a caixa d’água utilizada para o abastecimento dos encanamentos da cidade. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

Na foto, a Avenida Capitão Índio Bandeira, na década de 1950. Ao fundo, à direita, a caixa d’água utilizada para o abastecimento dos encanamentos da cidade. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

Com tanta gente disputando água na área urbana, a falta de cuidados com o sistema de captação começou a criar novos problemas. Principal fornecedor de água da cidade, o rio do Campo foi sendo maltratado: erosão pela devastação da cobertura vegetal de suas margens, estradas mal projetadas cortavam o rio na carne e os agrotóxicos da indústria da agricultura em larga escala contaminavam suas águas.

Não tardou que os problemas se agravassem e algumas medidas foram sendo tomadas. Campo Mourão parece que adiantava um dos principais apelos que o mundo todo faz a si mesmo todo dia: o cuidado com o ambiente e com o problema ecológico. Já nos anos 1970 e 1980, novas formas de cultivo foram tentadas e o reflorestamento da mata ciliar que beirava o rio do Campo virou assunto político e social. Em 1976, foi tentado o Plano Nacional da Conservação de Solos. E, aos poucos, muitas pessoas passaram a associar qualidade de vida e cuidado com o meio-ambiente. Nada mais de água no balde. É assim que devia ser para todos.

Se hoje quase cem por cento das residências de Campo Mourão contam com água encanada, nem por isso os perigos vindos de antigamente devem ser desprezados. A quantidade de casas continua aumentando e a montagem de qualquer infraestrutura exige sempre vários cuidados. Líquido da vida, a água precisa da consciência de todos. Ninguém quer novos riscos de acidentes ecológicos, que poderiam ter consequências imprevisíveis.  Ninguém vive sem a água, ninguém quer passar sede. Que a água continue chegando até às torneiras da cidade. O cuidado tem de ser de todos. Ninguém mais quer a nostalgia do passado de quando as vovós iam pegar água com balde na beira do rio. É preferível que as vovós continuem contando as histórias, que não precisam mais se repetir.

Durante a década de 50, o rio Mourão ajudou a saciar a sede da cidade, e também a fixar os contornos urbanos de Campo Mourão, longe do rio e ao mesmo tempo perto dele para captar suas águas. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.

Durante a década de 50, o rio Mourão ajudou a saciar a sede da cidade, e também a fixar os contornos urbanos de Campo Mourão, longe do rio e ao mesmo tempo perto dele para captar suas águas. Foto: autoria desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Campo Mourão.


Autor: Fábio da Silva Smoliak – Aluno do curso de História – Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) – Campus de Campo Mourão

 


Sobre o Autor

História Unespar


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