Boiadeira, uma estrada de papel

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A mídia circulou a informação de que a presidente Dilma teria autorizado em 2013 em Campo Mourão a pavimentação de trecho da Estrada Boiadeira. A pavimentação é esperada pelos moradores há décadas e muitos acham, apesar do andamento das obras, de que ela está mais para a lenda do que para realidade. É de esperar. A Estrada Boiadeira se encontra no caminho da história da ocupação dos sertões brasileiros, história sempre cheia de episódios mal explicados. Não foi diferente para os sertões do Paraná.

Muitas vezes a história é carregada de fatos inexplicáveis, muitas vezes até improváveis, e por isso pesquisadores os consultam como lendas para tentar entender a realidade.  O aumento da população da região oeste no início do século XX forçava a abertura de caminhos para o interior do estado e a Estrada Boiadeira era o trecho que iniciava em Ponta Grossa, passando por Guarapuava, Campo Mourão e deveria chegar ao atual Mato Grosso do Sul, então estado grande abastecedor de carne. A carne era escassa por aqui: “sem a abertura de uma estrada para o Mato Grosso [do Sul], daqui a pouco só os abastados poderão gozar as delícias de um assado suculento”, dizia Edmundo Mercer, topógrafo e sertanista, nascido em Tibagi, contratado pela empresa Colle Weiss & Cia. como responsável pela construção da estrada em 1910 e principal observador da realidade dos fatos.

Antes de ser agrimensor, Edmundo Mercer também foi professor e político na cidade de Tibagi. Ele foi contratado para liderar grupo de camaradas para a construção da estrada Paraná – Mato Grosso, conhecida atualmente como Estrada Boiadeira.

Antes de ser agrimensor, Edmundo Mercer também foi professor e político na cidade de Tibagi. Ele foi contratado para liderar grupo de camaradas para a construção da estrada Paraná – Mato Grosso, conhecida atualmente como Estrada Boiadeira.

Construir a Boiadeira no princípio do século XX não era fácil. A tecnologia de engenharia da época não atendia a todas as exigências da natureza. Atravessar rios como o Paraná, matas com animais ferozes e enfrentar índios pouco amigáveis exigia prática, fôlego e coragem.

Mercer escrevia cartas, diários e matérias de jornal publicadas em Ponta Grossa e Curitiba e quando construía a estrada Boiadeira, nos anos de 1910, viu e viveu conflitos de interesses que preferia ter evitado ver e viver. Em junho de 1913, relatou que faltava gado no estado e que logo um quarto da população não teria carne para se alimentar. Guarapuava e Ponta Grossa, nos Campos Gerais, estavam ficando despovoadas.

A construção de uma estrada ligando o Paraná a Mato Grosso do Sul era urgente e Campo Mourão era estratégica para essa ligação. Além do abastecimento de carne, a Boiadeira iria facilitar a ocupação do sertão paranaense. Campo Mourão era uma zona cheia de matas virgens, povoada de pequenos agricultores e exploradores de erva-mate, mas ainda cheia de espaço a ser ocupado. Eram “mais de 3 milhões de hectares de terra roxa, de águas deliciosas e perenes, de ricas pastagens, de clima ameno, até agora avaramente escondido além o Ivaí”, reclamava Mercer.

Site da Prefeitura Municipal de Tibagi  - www.tibagi.pr.gov.br

Site da Prefeitura Municipal de Tibagi – www.tibagi.pr.gov.br

Problemas de poder envolviam a construção da Boiadeira e a ocupação do oeste. Empresas estrangeiras ilegais exploravam a terra, circulavam moedas de outros países e existiam lugares onde se falava outro idioma. Era um “Estado dentro de outro Estado”, denunciava outro sertanista, Domingos Nascimento. A história da Estrada Boiadeira é cercada de mistérios e de especulações.

Será que dessa vez a Estrada Boiadeira deixa de ser lenda?

Hoje há muitas dúvidas sobre o motivo da Estrada Boiadeira não ter sido concluída antes e surpreende a força com que aparece na agenda da política em promessas de campanhas eleitorais. Perguntado, em 1913, quando a estrada seria concluída, Edmundo Mercer respondeu que não sabia. Pois é Mercer, nós também não sabemos, mas um bom remédio contra a lenda são os olhos: só vendo para crer.

A história segue se repetindo. Mesmo se daqui a uns anos, a Boiadeira estiver pronta e funcionando, ela não deixará de ser contada como a história que durante anos sempre fez parte da fantasia coletiva, do imaginário da lenda.


 

Autora: Nathalia Bueno – Curso de História – Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) – Campus de Campo Mourão


Sobre o Autor

História Unespar


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