História de Davi: a complexidade do autismo

7

Às 17 horas de uma segunda-feira, Davi Victor Bueno, 5 anos, chega da escolinha que frequenta e geralmente está ansioso para brincar com o pai e com a mãe. Ele tem a síndrome do espectro do autismo e precisa ir à APAE (Associação de Pais e Amigos dos Especiais) pela manhã e a tarde ele vai para a Escola. A rotina ajuda os pais a conseguir conciliar o cuidado com o filho com a vida profissional.DSC_0038ab

Davi não fala, mas tenta se comunicar com as mãos. Ele ri quando gosta de algo, mas reclama e fecha a cara quando se irrita ou quando é contrariado. Ele adora ventiladores ligados e outros objetos que giram. Gosta também de andar de carro e comer. Odeia lugares muito cheios e corre quando é hora de dormir.

Em Campo Mourão, não existe um lugar para tratar especificamente dos autistas e a família precisou reivindicar seus direitos para que o filho entrasse na APAE e na Escola Municipal. Na APAE ele consegue ser atendido por profissionais que os pais não teriam condições de pagar: fisioterapeutas ocupacionais, psicólogos e pedagogos. Na Escola Municipal ele frequenta a sala com outros alunos já que família foi beneficiada pela Lei nº 12.764 que garantiu os direitos a todas as políticas de inclusão do país para pessoas com transtorno do espectro autismo, mas precisaram reivindicar o profissional especializado.

A primeira coisa que Davi faz todos os dias, perto das 17 hrs, quando chega em casa é deixar o cachorrinho sair para dar uma volta. Quando a Revista Metrópole chegou a casa de Davi o cachorro aproveitou para entrar pelo portão que precisa ficar fechado sempre com uma corda para evitar que a criança saia. O filho tem quase o mesmo nome do pai, Davi Ozório Bueno, a quem ele puxa pelo braço para brincar. A mãe é Kelly Cristina dos Santos. O pequeno tem também uma irmã 16 anos mais velha que ele e uma sobrinha de menos de um ano.

 

Diagnóstico

DSC_0062

“Logo que a Kelly soube que estava grávida, nós soubemos que eu tinha passado no vestibular para pedagogia”, lembra o pai. Ele diz que isto os ajudou a descobrirem a síndrome do filho. No Brasil, estima-se que 2 milhões de pessoas possuem o transtorno do espectro autista, mas metade delas não foram diagnosticadas. É possível identificar o autismo a partir do 2º ano de vida, mas em geral, as crianças só são diagnosticadas após os 4 anos de idade. Davi foi uma exceção, pois foi diagnosticado aos dois anos.

Cursando pedagogia, Davi Ozório começou a perceber a demora no desenvolvimento do filho. “A gente aprende que com um ano a criança já tem algumas respostas e nós víamos que o Davi era diferente”, explica. Kelly também começou a desconfiar que algo não estava certo e resolveu colocar a criança na escola para acelerar o desenvolvimento. “A professora dessa escola foi quem falou pra mim que tinha alguma coisa errada. Na hora eu fiquei nervosa, imagine, alguém falando que seu filho não é normal, mas no fundo eu sabia bem o que fazer”, relembra a mãe.

A primeira suspeita era que Davi era deficiente auditivo e por isso não respondia aos chamados e sons que todos faziam para chamar a atenção dele. A doutora foi bem enfática quando viu o resultado dos exames e disse: “Ele escuta melhor do que nós”. “Isso, pra uma mãe é muito difícil. A gente voltou a linha de partida e agora precisávamos levar nosso filho a um neurologista”, conta Kelly. Novamente, o neuropediatra não conseguiu esclarecer, mas deu o indicativo de que “poderia ser autismo”.

“A essa altura precisávamos de um diagnóstico preciso. Levamos a outro médico e quando entramos na sala o Davi ficou observando o ventilador. O médico, experiente, já percebeu e disse ‘Ele tem autismo né?’”, conta a mãe. A partir de então, a rotina da família começou a ser alterada. Eles passaram a sair menos com Davi e quando saem pedem para algum parente próximo ficar com ele. Diminuíram as viagens e já entenderam que a ida ao supermercado, por exemplo, tem uma hora para acabar.

Eles começaram a trabalhar cada evolução como uma conquista: a retirada das fraldas, comer e tomar banho sozinho, a execução de outras tarefas diárias. “São coisas simples para outras crianças, mas pra nós, cada passo é muito importante. (…) Na escola, ele rejeita algumas atividades muito simples, mas faz outras mais complicadas com muita facilidade. Aprendemos todos os dias sobre ele”, conta Kelly.

 

Informação é o caminho

 

DSC_0046O autismo é complexo e não se sabe a causa, nem a cura. Ele afeta, principalmente, a comunicação, a socialização e o comportamento da criança. Autistas costumam rejeitar o contato físico, evitam o contato olho-a-olho e optam por uma vida mais isolada, focada mais em sensações físicas e no interesse por objetos. A maioria das pessoas autistas não apresenta nenhum sinal externo que as distinga das demais. A variedade de apresentações do autismo é tão grande que não se encontram duas pessoas autistas com as mesmas dificuldades e habilidades.

Em Campo Mourão, a Associação Amigos do Autista de Campo Mourão (AACM) tem lutado pelos direitos dos pais e autistas da cidade. Para Kelly e Davi, participar da AACM é reconfortante. Através de um grupo do Whatsapp (aplicativo para celular) eles trocam conhecimento e experiências. “É muito tranquilizante saber que há diversas famílias que passam ou já passaram pelo que está acontecendo conosco. Às vezes, meu filho toma alguma atitude e eu não sei como reagir, mas posso recorrer a eles e ouvir conselhos”, diz Kelly.

Para a Semana Municipal de Conscientização do Transtorno do Espectro Autista, que acontece de 5 a 11 de abril, a AACM prepara diversas ações para que mais informações sobre a síndrome chegue às pessoas e para que mais direitos sejam garantidos para as famílias com pessoas autistas. No dia 11 de abril, todos os 30 pais que fazem parte da AACM e outros voluntários estarão em vários pontos da cidade distribuindo panfletos e alertando a população de que o autista, ao contrário do que muitos dizem, não vive em um mundo paralelo.  “Ele está aqui, agora e precisa que busquemos formas de incluí-lo melhor do que fazemos hoje”, explica Sandro Campos Soares, um dos membros da AACM.  Além disso, a ação tem como objetivo a busca por mais parceiros interessados a se juntar a causa da AACM, para prover mais benefícios para todas as famílias com algum caso da síndrome.

 


Sobre o Autor

Liandra Cordeiro
Liandra Cordeiro


7 Comentários


  1.  

    É EMOCIONANTE. PARABÉNS. FAMILIA LINDA




  2.  
    Marli Cabrera Soares

    Uma história de muito amor!




  3.  

    OI KELLY QUERO MUITO CONHECER O DAVI.. PARABÉNS PELO AMOR, GARRA E LUTA PELOS DIREITOS DELE.. BJS PRÁ VITÓRIA QUE DEVE ESTAR LINDA…..




  4.  

    Ainda bem que o Davi, contou com a preocupação e atenção dos pais para o seu desenvolvimento tanto físico como emocional. Parabéns Davi e Kelly.




  5.  

    Verdadeira prova de amor!!!
    Davi muito querido




  6.  

    O amor supera tudo. Continuem unidos e amando muito o Davi, pois ele vencerá.




  7.  

    Muito linda a história do Davi!
    Liandra, com todo respeito, gostaria de fazer uma observação sobre algo colocado no texto.
    Fisioterapia e Terapia Ocupacional são duas profissões diferentes. Nao existe o profissional "fisioterapeuta ocupacional". A Terapia Ocupacional é uma profissão de nível superior, regulamentada por lei e que existe no Brasil desde 1969. (Lei 938 de 13 de outubro de 1969, disponível no site do COFFITO – Conselho Federal de fisioterapia e Terapia ocupacional).
    Ambas atuam no tratamento e auxiliam no desenvolvimento de crianças autistas, mas cada uma tem objetivos de tratamento específicos, utiliza-se de recursos e equipamentos próprios da profissão e possuem atribuições privativas, estabelecidas também por lei.
    Sei que a intenção do texto não é ferir nenhum profissional, mas sim informar às pessoas e contar a história do Davi… Mas, como Terapeuta Ocupacional, tenho visto ao longo de minha experiência profissional muitos pais confusos com relação aos profissionais que podem ajudar no tratamento das crianças.. E a falta de informação acaba atrasando a busca e o início do acompanhamento adequado, o que interfere no desenvolvimento da criança. Sabemos que quanto antes o diagnóstico e o início das intervenções, mais favorável será o prognóstico.
    Agradeço o espaço!

    Atenciosamente,

    Débora Motter
    Terapeuta Ocupacional





Deixe uma Resposta


(obrigatório)


Nunca mais perca uma postagem. Informe o tipo de conteúdo que você deseja receber e ganhe um cupom de desconto para uma compra na metropolestore.com.

Fica tranquilo, não enviamos spam.