Catarata: diagnóstico e tratamento

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Marcelo-BritoA catarata é a principal causa de cegueira evitável ou curável no Brasil e na América Latina. Ela afeta principalmente a população
com mais de 60 anos, mas é curável cirurgicamente. Conversamos com o oftalmologista Marcelo Brito, da Belle Clinique,
sobre as causas e o tratamento dessa doença.

Metrópole: O que é a catarata?
Marcelo: A catarata é uma doença muito comum que se caracteriza pelo embaçamento da visão, causado pela perda de transparência de uma importante parte do olho, o cristalino. O cristalino é a lente natural do olho e é responsável por conseguirmos fazer foco nos objetos que estamos observando. Quando olhamos para longe, a estrutura do cristalino relaxa, quando olhamos para perto, se contrai. Na catarata, com a opacificação do cristalino, a sensação que o paciente tem é a de ter uma nuvem dentro do olho.

Metrópole: Quais são as causas da catarata?
Marcelo: A causa mais comum é o simples envelhecimento do indivíduo. Quando o paciente se assusta com o diagnóstico, costumo brincar que eu torço muito para ter catarata um dia. Com o paciente surpreso com isso, digo que a única forma de não ter catarata é morrer cedo, e isso certamente eu não quero. Durante a vida, o cristalino é exposto constantemente à radiação ultravioleta, que em muitos estudos é apontada como um fator importante na formação da catarata. Um levantamento americano diz que 50% dos indivíduos aos 65 anos e 70% aos 75 anos têm catarata. Além disso, muitos outros fatores podem provocar catarata. Uma causa importante são traumas nos olhos. Um dos primeiros pacientes que operei quando voltei aqui para Campo Mourão foi um motorista de caminhão que, ao colocar a lona na carreta, a borracha que a segura se soltou e bateu em um de seus olhos. Além de formar a catarata pelo impacto, o cristalino ficou pendurado dentro do olho, quase despencando. Também há doenças, e mesmo remédios, que podem provocar catarata. O diabético é um dos mais acometidos e normalmente tem catarata bem mais cedo que o normal. Algumas vezes muito mais cedo: ano passado uma menina de 19 anos passou pela cirurgia em seus dois olhos aqui conosco. Também há estudos que mostram uma prevalência maior de catarata em fumantes, em obesos e em sedentários. Isso está relacionado também ao diabetes, que é mais comum nesses grupos.

Metrópole: Quais os sintomas da doença?
Marcelo: O principal é a baixa de visão. Isso vai levar o paciente a perder muito de sua qualidade de vida, já que atividades corriqueiras como ler, dirigir ou mesmo uma compra no supermercado podem se tornar experiências frustrantes e quase ou totalmente impossíveis de se fazer de forma independente e com segurança. Em algumas fases, muitos pacientes referem que as cores perdem a qualidade, principalmente assumindo tons amarelados. É comum pacientes operados de apenas um olho dizerem que não lembravam como o branco podia ser tão branco. Outros também relatam que ao olhar para uma fonte de luz distante, como a lua, veem halos de luz ao redor. Uma catarata normal não dói, não deixa o olho vermelho, não tem secreção, não arde nem coça.

Marcelo-BritoMetrópole: Quais os tratamentos recomendados?
Marcelo: Só há um tratamento para a catarata, que é removê-la cirurgicamente. Muitas pessoas confundem catarata com aquela “carne” que se forma do lado de fora do olho, o pterígio. Algumas vezes até insistem que já foram operados de catarata, quando na verdade só fizeram essa cirurgia do pterígio.
Metrópole: Quais os procedimentos cirúrgicos?
Marcelo: Existe uma técnica hoje quase abandonada que chamamos de Facectomia. Ela consistia em remover o cristalino como uma peça inteira. Como o cristalino é muito grande, era necessário se fazer uma incisão (corte) no olho de cerca de 9 a 11 milímetros. Isso, além de muito agressivo, gerava a necessidade de dar vários pontos nos olhos, o que gerava, em muitos casos, um astigmatismo.
Há alguns anos atrás uma nova técnica surgiu; a chamamos de facoemulsificação. Nesse método, a catarata é “aspirada” pelo aparelho em pequenos fragmentos. Dessa maneira, a incisão da cirurgia se reduziu em muito, sendo atualmentede cerca de 2,2 milímetros. Isso tornou a cirurgia mais segura, além de aumentar muito a sua qualidade final. De toda forma, o paciente deve sempre estar muito bem informado de que não existe qualquer tipo de operação sem riscos. O próprio ato de operar já é um risco. Além disso, em muitos casos o paciente pode ter outros problemas de saúde ou na própria visão, que aumentam esses riscos.

Metrópole: Quais os benefícios da cirurgia?
Marcelo: O primeiro e mais importante benefício é a melhora da visão, na maioria dos casos. Como consequência disso, o paciente pode também readquirir a liberdade em poder fazer a maioria das coisas sem a necessidade de ajuda. Dá muita satisfação ver as pacientes trazerem seus bordados e dizerem que há anos já não faziam mais. Ou então aquele senhorzinho que consegue voltar a dirigir seu carro. Infelizmente, não temos o poder de fazer isso para todos. Ao mesmo tempo, sabemos que a medicina não tem limites e a cada ano novas técnicas chegam. Não existe “impossível”, só existe o “ainda não”.

Metrópole: Quais os tipos de lente utilizados?
Marcelo: As lentes intra-oculares são uma decisão médica compartilhada com o paciente. Mais comumente, são usadas lentes que chamamos de Monofocais. São lentes que vão ajudar a enxergar ou para longe ou para perto. Na maioria dos casos são feitas de um material flexível, que permite que possamos passá-la por aquela pequena incisão de 2,2 milímetros. Porém, mais recentemente, surgiram o que chamamos de lentes premium. Existiam alguns limites da cirurgia, que agora foram rompidos.
O primeiro foi o caso de pacientes com astigmatismo. As lentes comuns corrigem apenas a miopia ou a hipermetropia. Mas agora existem lentes que chamamos de teóricas, que funcionam como as lentes de contato para o astigmatismo. A cirurgia é tecnicamente mais complicada e requer um treinamento adequado, pois existe um posicionamento perfeito para a lente, que deve ser planejado antes da operação. É uma lente com custo mais alto, porém diminuem muito a dependência de óculos após a operação. E, por último, temos também agora lentes multifocais. Essas lentes ajudam tanto na visão de longe quanto na de perto. Recebem o mesmo nome dos óculos multifocais, mas a tecnologia é diferente. Aqui em Campo Mourão já realizamos o implante de todas essas lentes com muito sucesso, graças a Deus.

Metrópole: Quais os riscos da cirurgia?
Marcelo: Na verdade, tudo que pode ser imaginado, pode acontecer. A cirurgia não pode ser banalizada. É extremamente delicada, é uma operação feita inteiramente dentro do olho. Desde uma infecção, descolamento de retina, deslocamento da própria lente, e muito mais. O paciente deve estar muito consciente disso e o cirurgião deve deixar isso bem claro, inclusive para a família. E cada indivíduo pode ter também seus próprios riscos, dependendo de sua própria saúde. Como dissemos antes, a maioria dos pacientes com catarata são bastante idosos, assim uma grande parte tem diabetes, pressão alta, Alzheimer, que podem atrapalhar a própria cirurgia, bem como o resultado dela mesma. Antes de se operar, logicamente, devem ser feitos vários exames, que ajudam a detectar esses problemas e estimar os riscos. No momento da cirurgia, sem dúvida alguma, o seu oftalmologista vai fazer tudo que está ao seu alcance para fazer a melhor cirurgia possível. Mas ainda assim muita coisa não tem como ser prevista. Um cirurgião que diz nunca ter tido complicações tem duas explicações: não sabe o que está dizendo ou está mentindo. Somos humanos e, infelizmente, há muitas coisas que ainda estão além de nossas possibilidades.

Marcelo-BritoMetrópole: Por que procurar um especialista em catarata?
Marcelo: Pela própria delicadeza do ato. Todo oftalmologista é treinado na cirurgia de catarata durante seu período de aprendizado e, mesmo depois disso, jamais deve se cansar em aprender mais. A oftalmologia tem um grande inimigo chamado optometria. Em muitos lugares esses cidadãos enganam a população, que é induzida ao erro de achar que está sendo avaliada por alguém capacitado para saber qual é seu problema e como corrigí-lo. Isso, muitas vezes, provoca um atraso no diagnóstico e, por conseqüência, no tratamento. Normalmente isso se dá dentro de óticas mal intencionadas, o que infelizmente existe em todas as profissões, inclusive na medicina. Sempre contamos com o apoio da população para denunciar onde isso ocorra.

Metrópole: Pode-se dizer que a catarata é uma doença da terceira idade? Se sim, por quê?
Marcelo: Na maior parte dos casos, sim, mas não exclusivamente. Há casos de catarata inclusive congênita, ou seja, quando a criança já nasce com catarata. Durante um ano estagiei no setor de Trauma Ocular do hospital da Universidade Federal de São Paulo, elá acabávamos tendo contato com um número alto dessa situação.

Metrópole: Considerações finais.
Marcelo: Muitas pessoas ainda têm o hábito de achar que esses problemas só podem ser resolvidos ao se viajar para cidades distantes, como Maringá ou Cascavel, enfrentando os riscos de estrada e os transtornos de fazer uma recuperação cirúrgica muito longe de onde se mora, mas aqui em Campo Mourão temos os mesmos tipos de tratamento sem o incômodo de ir até outra cidade.


Sobre o Autor

Renato J. Lopes
Renato J. Lopes



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